Literatura > Contos
O que Dalzio escreverá como contos, ou anédotas, ou histórias, ou "causos" terão a mesma semântica apontada na sua participação em Poesias. Válido então o que ali se escreveu e que agora se repete a continuação.
Quem é o Dalzio?
É um pseudônimo? Ou nome real de uma pessoa? Ou de várias?
Vamos a personificá-lo como um ser humano sem tempo. A fantasia nos permite essa tramoia – honesta – cujo enredo o faz mortal várias vezes.
???
Vive várias vidas, até que decide mostrar com a palavra, situações nas que importa mais o conteúdo que a forma, já que se trata de histórias humanas. De cualquier data.
Mas sabendo que a palavra é arte, que como toda arte tem que expressar emoção com beleza, tentará não fazer feio, assegurando que toda situação - seja jocosa, curiosa ou qualquer outra “osa” – estará carregada com emoções.
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1º - UMA ANOSA HISTÓRIA DE ALFABETIZAÇÃO DE ADULTOS - Outubro de 2012
10 / 12/ 2012...
A IMPORTÂNCIA DE UMA SAUDAÇÃO
UMA HISTÓRIA DO SÉCULO XX
Era costume levar as cadeiras à rua, colocá-las nos passeios e sentar-se para pegar o ar mais fresco da noite. Verões quentes aqueles.
As famílias todas. A rua se enchia de vizinhança.
A iluminação pública, além de fraca na intensidade era pouca na quantidade. Uma lâmpada por esquina.
A criançada nela se reunia para brincar e jogar conversa fora, sob os atentos olhares adultos. Não porque houvesse perigo e sim para controlar comportamentos.
Eram tempos de bons costumes e limites precisos.
Todas as casas, não havia exceções, eram edificadas no alinhamento. Vistas desde a esquina, os dois planos de fachada estavam na penumbra, separadas por um calçamento cinza escuro, interrompido por cada circulo de luz que as luminárias acessas desenhavam não chão das esquinas.
Os passeios...ah, os passeios eram assunto bem diferente. Como cada família deixava a luz da entrada acessa, frente a cada porta havia um retângulo de luz horizontal, que invadia a quem o tinha criado e, se fazendo vertical, rasgava a escuridão de cada frente mostrando com nitidez o acesso a cada intimidade familiar. Nesse retângulo ninguém sentava. Estava sempre livre. Da mesma maneira havia uma trilha, junto ao meio-fio, que permitia o passo de passantes.
O “quadro” tinha o raro aspecto de ser sempre igual e sempre diferente ao mesmo tempo. Mas por conhecido, proporcionava uma agradável sensação de segurança.
O motivo não é importante. Uma criança não tinha ido à esquina essa noite, e por outro motivo, também nada importante, somente o pai estava na rua. Ambos sentados frente a frente, separados – ou unidos - pelo retângulo de luz. Havia noites que ele tinha a magia de uma fogueira.
Essa, era uma das tais noites.
Um casal caminhando pelo calçamento – carros eram raros nessa época, e mais ainda nesse horário – passou e cumprimentou com um clássico:
- Boa noite!!!
Somente o pai respondeu à saudação, e logo recomendou ao filho que nunca devia silenciar frente a um cumprimento. Não somente por educação, mas também por interesse pessoal.
- Sobrevivência, filho. Sobrevivência...
A expressão da criança era toda interrogação, e o pai, pacientemente contou-lhe uma história.
Ele e seu irmão estavam, quando solteiros, sentados na porta de casa em uma tarde de um outono qualquer. Sendas bicicletas faziam supor que tinham feito – ou fariam – um passeio nelas. Era costume, nesse povoado, pequeno, esse meio de locomoção.
Havia uma moça, que o relator namorava, e que por influência da possível e futura sogra, era quase certo que, “a muchacha”, nunca seria sua esposa.
Aconteceu que ela, acompanhada pela irmã, apareceram de improviso, também de bicicletas.
O irmão, foi quem primeiro as viu, avisou-lhe.
- À tua direita... vem tua namorada.
- Puxa vida...e agora?
- Que pretendes fazer?
- Não sei...não sei...
- Pensa rápido, irmão, porque estão chegando!!!
- Olha, se ela cumprimenta, vou com ela...
Uns segundos de espera. Intermináveis, claro. Chegam as duas moças frente a eles, e a que interessava o olhou, e timidamente lhe disse:
- Oi, tudo bem?
- Tudo...tudo ótimo!!!
Pegou a bicicleta e foi-se com elas.
- Esse, foi o fim da história, filho.
- Pai, mas que tem a ver a sobrevivência com a história?
- Bem filho, se essas saudações não tivessem acontecido, tu não terias nascido.
DALZIO
Porto Alegre – Dezembro de 2012